segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Proximidade e Semelhança


Foto da autoria de Mário Sérgio, 2004


"Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não apenas a sua imagem na água ou em qualquer outro sítio, mas a ele mesmo no seu lugar."

A Alegoria da Caverna
A República, Livro VII, 514 - 517 a.C.
Platão


A fotografia de grupo, dos Artistas Plásticos integrados na Oficina de Artes da AFID, poderia ser a alegoria deste limite entre o cognoscível, que a custo se avista, à força de um fogo, fogueira, luz que existe à imagem de um Sol, e o inteligível, onde se procura entender verdades para além do que na sombra se oculta.
Nesta interpretação cénica (da autoria de Mário Sérgio Rainha Campos) da obra "Martírio de S. Mateus" de Michelangelo Merisi di Caravaggio, alguns dos autores da AFID teatralizam a Arte e enunciam o Barroco definindo-o pela sua própria, excessiva, encenação.
Para além do conceito estilístico está a ideia fundamental de que a entreajuda, solidária, interdependente, auto e aloconsciente, motivada, conduz ao triunfo, na Superação.
"A força não provém da capacidade fisica mas sim de uma vontade indomável"
(Mahatma Gandhi)
Não apenas a sua imagem na água ou em qualquer outro sítio, mas ela mesma, esta força, no seu lugar, é o valor activo, intrínseco, que lográmos encontrar nas obras de arte executadas pelos nossos Alunos e Artistas Especiais.
Na proximidade e à semelhança de autores como Caravaggio, Carraci, Poussin, La Tour, Lorrain, Murillo, Ribera, Zurbarán ou Velasquez, encontramos hoje, como ontem, o claro-escuro, as paisagens heróicas, as cenas nocturnas, a poesia da luz, o cromatismo quente, as paisagens delicadas e a retratística veemente, em novíssimas representações e elaborações de autores como Nuno Geada, Mário Sousa, Paulo Fonseca, Margarida Baptista, Pedro Martins, Andreia Bulhão, Maria João Gil, Linda Pires ou Ana Clara Cruz.

A Arte e o Artesão

No século XVII, era somente nas oficinas de pintura e entre os artistas que se empregava o termo "barrocar" para designar o desenho sinuoso dos móveis e a dissolução dos contornos sólidos da pintura.
Estamos no século XXI, e entre nós, nas Oficinas de Artes da AFID, continuamos a "barrocar" matéria prima em obras de Arte e Artesanato, sofisticadas pela sua abordagem contemporânea, e ainda assim imbuídas nas antigas tradições do desenho, pintura, cerâmica, madeiras, papel e tecelagem.
Neste catálogo, que acompanha e celebra três eventos centrais - a Exposição de Artes e Oficios
"Proximidade e Semelhança" na Assembleia da Repúplica, a Exposição de Artes Plásticas e Design no IADE, ambas entre 18 e 20 de Março de 2005 e no âmbito da Semana da Juventude da CML, Dia do Estudante e Dia da Juventude (24 e 28, respectivamente) e a Feira Social, 1ª Mostra Anual da Acção Social Portuguesa, entre 18 e 20 de Março de 2005 - parece-nos lícito reflectir sobre a importância da obra de arte produzida por autores em situação de desvantagem fisica e mental, similitude de condição e riqueza destas produções e autores, e a contiguidade deste trabalho e dos seus produtores das "Mainstream", principais correntes de produção cultural nacionais e internacionais.
Contudo e sem extrapolar demasiado a missão da AFID, que é fundamentalmente social, consideremos três asserções exemplares:

"É, sem sombra de dúvida, uma enorme vantagem falar, através de um telefone, com um homem nos Antípodas; a sua vantagem depende inteiramente do valor daquilo que os dois homens têm para dizer um ao outro."

"Um comboio que transporta um inglês comum através de Itália, à velocidade de 40 milhas por hora e que lhe faculta finalmente o repouso, sem nenhuma memória desse país encantador, se visse enganado na chegada a Roma, ou porventura tivesse iniciado a viagem com um péssimo jantar em Verona, não se veria a sí, ou à própria civilização, elevados a melhor condição."

"Parece-me melhor pintar sobre o desenho de um braço, por exemplo, de uma rapariga, tapando-o, que interromper as duas linhas que o definem com outras duas perpendiculares, com a pretensão de assim melhor o cobrir (o braço) com a representação de um panejamento."

As duas primeiras considerações são parábolas retiradas dos ensaios e discursos de Oscar Wilde sobre a Arte e o Artesão ("Art and the Handicraftsman", Londres: Methuen e Co. 1908) e debruçam-se sobre duas questões essenciais da reflexão artística:
1ª- a relação de valor entre o conteúdo, que se exprime, e o veículo dessa expressão.
2ª- a justa relação de importância entre a obra artística, enquanto fim, e os meios e processos que conduzem à sua finalização.
A terceira consideração, directa, é retirada de um diálogo com Pedro Martins, Artista Plástico na AFID.
Reporta directamente a um exercício (ilustrado na figura A da pag.3) onde o intuito redundava na descrição, passo a passo, com o recurso ao desenho, dos elementos de uma figura observada.
Justamente, o Pedro propõe reforçar a acção do pano com uma ocultação, pintada (riscada) por cima do braço.
O pano ocultava, por vocação e sem sombra de dúvida, uma porção do braço. É naturalmente sensato utilizar um recurso semiótico desta natureza para fazer esta descrição, tal como se desvendou absolutamente sensato representar frontalmente o olho ou assumir o perfil do nariz como recursos semióticos de clarividência descritiva e comunicativa em figurações Cubistas como são exemplo as obras de Pablo Picasso.
Oscar Wilde lega-nos um discurso vivo e coerente sobre conteúdo e processo, na relação entre o artista e a sua obra, e o Pedro lega-nos o discurso activo da forma, na sua infinita riqueza.

É sobre o contributo formal destes jovens autores que este Catálogo de Primavera 2005 se debruça.

Fazemos da nossa experiência, partilhada com os autores, um convite: embarquem connosco e deixem-se, envolver nesta arte que não é limitada a um grupo, nem meramente particular ou localizada, mas sim universal, património de todos.




"Para levares para a tua casa, para ficar mais bonita"

Nuno Geada, legenda da obra "O Barco", figura C, pag.4.




Professor de Pintura
AFID
Março de 2005



2 comentários:

Grupo Quatro disse...

Boa tarde..
O meu nome Carolina e vi ontem, dia 13 de Novembro, uma reportagem no jornal da tarde sobre o trabalho artístico que faz com pessoas que requerem cuidados especiais, pessoas com deficiências mentais, e achei deveras interessante.
Eu sou uma aluna o 12º ano e este ano estou a trabalhar num projecto sobre este tipo de doenças e deficiências e achei muito pertinente e invulgar o seu trabalho. É certamente algo que é importante e que pode e faz , de facto, diferença na vida destas pessoas e gostava de passar essa mensagem á minha comunidade educativa.
Por fim, o que lhe queria perguntar é se seriam possíveis exposições de certos trabalhos artísticos dos seus alunos em escolas? Ou se eu e o meu grupo de projecto o poderíamos contactar para discutir/ponderar essa possibilidade?
Deixo aqui um contacto para que possa, se estiver interessado, enviar um email a me responder: neurocienciasgrupo4@gmail.com
Os meus cumprimentos, Carolina Ladeira.
P.S. peço desculpa por ter de lhe deixar um comentário e não o contactar directamente mas não consegui encontrar um outro contacto directo seu.

andreia disse...

Eu também sou pintura, não sou uma pintora especial, sou sim um pessoa diferente, pois sou deficiente motor, então os meus trabalhos são feitos pelo movimentos do meus membros que dizem o que vai no meu coração, gostaria de o convidar a visitar o meu blog, http://o-blog-da-sara.blogspot.com e saber a sua opinião, fico muita satisfeita
Sara Livrameno